terça-feira, 18 de outubro de 2011

Morte” - Lasar Segall  1918  ( 94x105 cm óleo sobre tela )


O quadro de Segal, deixou-me muito impressionada, a primeira vez que vi  causou-me muita admiração, seguida de um sentimento de tristeza, e dor. A fusão dos corpos e a inexpressividade causada pelos enormes olhos vazados e sem vida, me lembraram os adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de internação com os quais trabalhei. De forma que, além da dor, me trouxe um sentimento de empatia e de compaixão.
Tristeza no quando vemos que enquanto sociedade ainda permitimos um semelhante sobreviver em condições que não lhe garantam o mínimo necessário para seu crescimento enquanto pessoa. Winnicott, dizia que só a presença humanizadora do outro garante que o indivíduo seja integrado, saindo de um processo de fusão (no inicio de seu desenvolvimento emocional ) para o de individuação, no qual é capaz de separa o eu do não eu, é também essa relação que da a sustentação emocional necessária para que o indivíduo perceba o mundo como um lugar seguro para viver. O funcionamento de nossa sociedade atual tem contribuído para construção de relações cada vez mais alienadas e desumanizadoras, pois em nome do capital até a vida perdeu o valor.
Ao observar a obra de Segall foi como que um filme passando na minha cabeça eu vi cada rosto dos adolescentes que apanhavam, ouvi seus gritos,vi as algemas e as marcas que faziam em seu próprio corpo, mutilação, vi seus uniformes , aqueles shorts caquis e camisas brancas já bem gastas, os apelidos, os estigmas, vi seus pés descalços, suas cabeças raspadas, ouvi suas súplicas, e também as músicas que cantavam para esquecer,li suas cartas novamente e fui escriba para eles de novo; vi suas reações brutas ao tratamento bruto que recebiam, e também vi cada reação humana quando lhe ofereciam humanidade, cada sorriso, a gratidão,a mágoa, o ódio, vi o olhar de todos em um e o olhar de um em todos, vi suas histórias de vida, de violência, de abandono, de maus-tratos. Vi seres fragmentados e fundidos na mesma realidade crua que os envolvia e vi as grades que como a animais os mantem dominados e longe de causarem danos a sociedade que os gerou.
Por tudo isso, apesar de ter observado uma obra intitulada “Morte”, lembrei-me de pessoas que estão vivas. E estão vivas apesar de, e vão se constituindo no olhar do outro sobre si, e lutam para não adoecer,para não enlouquecer. Eles criam. Não da forma mais “refinada” como aqueles que já aprenderam a lidar com seus instintos mais agressivos (sublimação). É uma criatividade encharcada do desejo de viver, ou mesmo para demostrar que estão vivos ainda, apesar de.
Devo confessar que na obervação também me vi nos olhos deles, e por isso a empatia ( idéia de estar “dentro” do sentimento alheio ).Vi-me enquanto ser da mesma espécie, como Humano, e penso que isso está acima de qualquer diferenciação ,(de sexo, cor, religião, grupo social, status, hierarquia, leis, grau de escolaridade, moradia, vocabulário,etc). E finalmente “Morte” trouxe-me esperança, sim, esperança na capacidade do ser humano de transpor os limites trazidos pela alienação da vida, das relações do homem com o homem e do homem com a natureza. Esperança na nossa capacidade de criar, de expressar e com isso de nos constituirmos como indivíduos .
  


"Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura ...
(...)
...porque a nossa única riqueza é ver." (Alberto Caeiro)


 

Arte de rua

Tirada em um terreno baldio no Bairro do Capão Redondo SP - Ago.2011
Recentemente substituida por uma propaganda...

"Sempre quis um lugar,
Gramado e limpo, assim, verde como o mar,
Cercas brancas, uma seringueira com balança,
Disbicando pipa, cercado de criança...
How...how Brown
Acorda sangue bom,
Aqui é Capão Redondo, tru
Não pokemon,..."
(Racionais Mc's)



"A história da sociedade até aos nossos dias é a história da luta de classes."
Karl Marx

Um poema


O indivíduo
Deixa de Ser quando é invisível
Deixa de Ser Humano
Para ser bicho
Aquilo que é visto mas não percebido
Aquilo que já não sensibiliza o olhar
que foi obscurecido pela frieza da concretude,
das vicissitudes...
Tanto quanto da magnitude desta cidade.
Esta ai,
E grita
O abandono,
O desprezo,
A indiferença...
Do olhar que ao invés de humanizar desumaniza
Agride
Fragmenta o que tem de humano
Alimenta o bicho voraz
Que deseja viver, que anseia desesperadamente por viver
E sobrevive mesmo na invisibilidade
na marginalidade.
Deste espaço que é ao mesmo tempo cheio de Seres
e vazio de Humanos.








FOTOCIDADE e Leituras do Urbano

Márcia
(Oficina Fotocidade e Leituras do Urbano com Fernanda Procópio 2011)


  Gosto muito do ângulo e das linha desta foto, muito bom mesmo.
Contudo fiquei impressionada principalmente com as peças de roupa da lixeira e o combertor embaixo do cartaz, que possivelmente foi deixado por alguém, então conclui que o máximo desta foto foi ter registrado esse ser invisível. Esse alguém que vive as margens da cidade e que por vezes se funde com a frieza dela. Lembrei dos personagens de Vidas Secas de Graciliano Ramos, escritor regionalista do Modernismo Brasileiro. Fabiano sua esposa , dois filhos e uma cachorra, eram retirantes da seca no Nordeste, viviam a perambular em busca de novas oportunidade de sobrevivencia. Mas os períodos de seca eram tão cruéis que suas próprias vidas se confundiam com o vazio que ela deixava ao varrer tudo que lhes restava, o verde da natureza, a água, os animais, as esperanças, as palavras e a humanidade. Eram invisíveis também, desumanizados pelas condições sub-humanas de sobrevivencia.


[…] O bicho não era um cão,

Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.
Manuel Bandeira- O bicho