“Morte” - Lasar Segall 1918 ( 94x105 cm óleo sobre tela )
O quadro de Segal, deixou-me muito impressionada, a primeira vez que vi causou-me muita admiração, seguida de um sentimento de tristeza, e dor. A fusão dos corpos e a inexpressividade causada pelos enormes olhos vazados e sem vida, me lembraram os adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de internação com os quais trabalhei. De forma que, além da dor, me trouxe um sentimento de empatia e de compaixão.
Tristeza no quando vemos que enquanto sociedade ainda permitimos um semelhante sobreviver em condições que não lhe garantam o mínimo necessário para seu crescimento enquanto pessoa. Winnicott, dizia que só a presença humanizadora do outro garante que o indivíduo seja integrado, saindo de um processo de fusão (no inicio de seu desenvolvimento emocional ) para o de individuação, no qual é capaz de separa o eu do não eu, é também essa relação que da a sustentação emocional necessária para que o indivíduo perceba o mundo como um lugar seguro para viver. O funcionamento de nossa sociedade atual tem contribuído para construção de relações cada vez mais alienadas e desumanizadoras, pois em nome do capital até a vida perdeu o valor.
Ao observar a obra de Segall foi como que um filme passando na minha cabeça eu vi cada rosto dos adolescentes que apanhavam, ouvi seus gritos,vi as algemas e as marcas que faziam em seu próprio corpo, mutilação, vi seus uniformes , aqueles shorts caquis e camisas brancas já bem gastas, os apelidos, os estigmas, vi seus pés descalços, suas cabeças raspadas, ouvi suas súplicas, e também as músicas que cantavam para esquecer,li suas cartas novamente e fui escriba para eles de novo; vi suas reações brutas ao tratamento bruto que recebiam, e também vi cada reação humana quando lhe ofereciam humanidade, cada sorriso, a gratidão,a mágoa, o ódio, vi o olhar de todos em um e o olhar de um em todos, vi suas histórias de vida, de violência, de abandono, de maus-tratos. Vi seres fragmentados e fundidos na mesma realidade crua que os envolvia e vi as grades que como a animais os mantem dominados e longe de causarem danos a sociedade que os gerou.
Por tudo isso, apesar de ter observado uma obra intitulada “Morte”, lembrei-me de pessoas que estão vivas. E estão vivas apesar de, e vão se constituindo no olhar do outro sobre si, e lutam para não adoecer,para não enlouquecer. Eles criam. Não da forma mais “refinada” como aqueles que já aprenderam a lidar com seus instintos mais agressivos (sublimação). É uma criatividade encharcada do desejo de viver, ou mesmo para demostrar que estão vivos ainda, apesar de.
Devo confessar que na obervação também me vi nos olhos deles, e por isso a empatia ( idéia de estar “dentro” do sentimento alheio ).Vi-me enquanto ser da mesma espécie, como Humano, e penso que isso está acima de qualquer diferenciação ,(de sexo, cor, religião, grupo social, status, hierarquia, leis, grau de escolaridade, moradia, vocabulário,etc). E finalmente “Morte” trouxe-me esperança, sim, esperança na capacidade do ser humano de transpor os limites trazidos pela alienação da vida, das relações do homem com o homem e do homem com a natureza. Esperança na nossa capacidade de criar, de expressar e com isso de nos constituirmos como indivíduos .
"Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura ...
(...)
...porque a nossa única riqueza é ver." (Alberto Caeiro)

